quarta-feira, 27 de novembro de 2013

Bicho solto


Marco queria acreditar que alcançara o ideal, de bandido. Viveu naquele morro dias de aclamação de sua glória: pelo invejável destemor, pela submissão incondicional à autoridade daquela confraria, pelo respeito e fidelidade à lei estrita do bicho, do movimento do tráfico.
Bicho. Palavra que retém a alusão demoníaca de saber ter escolhido o mal como opção estética de vida. Não remeteria também a uma referência nostálgica aos contraventores do jogo do bicho, amigos rivais, velhos trapaceiros, a quem de alguma forma se homenageia, de quem se toma a liderança no mundo marginal?
Marco desenvolveu uma teoria particular sobre a condição de ser das coisas. A condição de ser dos objetos se coaduna com o quantum de energia que se lhes investe. Conforme essa teoria, o mundo é dividido em coisas fortes e coisas fracas, em pessoas fortes e pessoas fracas, em ações fortes e ações fracas.
Sua teoria muito bem encerra a mitologia do campo do crime. Não criara nenhum saber singular, apenas repetia o padrão, a doxa de seu grupo. Cumpliciados por essa mitologia, seduzidos pela ilusão coletiva, os membros do grupo concebem o mundo a partir dessa lógica binária.
Marco falava da confiança que havia conquistado nas bocas: não escorregava, agia dentro da moral. Dizia ser considerado e muito respeitado pelo que sabiam que ele era capaz de fazer.
O dono do morro era então concebido como um fera grande, homem forte, ideal que aspirava atingir. Marco também se considerava um fera grande. Feras pequenas eram os iniciantes, os soldados. Corajosos, sim, mas inexperientes.
Ele se considerava um modelo para os jovens iniciantes, e era reconhecido como tal. Sentia-se orgulhoso ao constatar que os feras grandes o colocavam nesse patamar.
         Colocar-se a serviço do tráfico - esse jogo mortal - implica desembaraçar-se dos propósitos individuais para lançar-se inteiro nessa cruzada.
O sentido da vida privada sede lugar à incorporação do mito. A força da interpelação mítica reside, assim, no apagamento da história pessoal: a suspensão consentida das singularidades.
Todavia, o sentido continua latente, a lembrar o desconforto da vida de menino frágil, que esconde seus temores. Sentido que se esvai para nutrir a forma do mito destemido.
Marco oferecia uma imagem reificada dos traficantes. Eles eram homens-força. Imagem mitificada na culinária do seu desejo.
Na criação dessa mitologia íntima, eles se metamorfoseavam em coisas, como homens-granada.
Fortaleza colocada inteira no ato, mas também na palavra empenhada. Desempenho cumprido com rigor religioso. Neles se pode confiar, dizia Marco. Ai daquele que se atreva a sair da linha, e faça coisa errada.
Marco não tinha inibições e convivia muito bem com essa ética que, no tráfico, encontra o ambiente propício para se enrijecer ainda mais. 
Sempre disposto a se enquadrar no modelo aceito naquele métier. Apostava suas fichas na carreira ascendente que trilhava no movimento.
Exagerava na dedicação para agradar seus chefes, realçando as qualidades valorosas que ampliavam os horizontes do negócio e o lançavam à frente na competição. Como faria qualquer jovem ambicioso que descobrisse, em si mesmo, uma inclinação, e se sentisse valorizado por realizar bem, seu ofício.

Eu via os traficantes e queria ser igual a eles. Eles têm fama, poder. Hoje eu tenho fama.

A coisa errada, de maior relevância, mais condenável no tráfico era alguém se revelar um X-9, se tornar delator. A aliança do grupo se concentra nesse mandamento básico: não trair. Único ato vedado.
Impedimento que garante a união e autoriza o atravessamento das maiores proibições como matar ou roubar. Abre o caminho à violação de todas as leis do código jurídico que sejam exteriores ao interesse do movimento.
Traição - transgressão máxima. Obediência - regra fundamental. Intencionalidades que se confundem no ato. Quem desobedece, trai. Quem trai, desobedece.
Se a obediência incondicional ao mandamento do grupo é a regra básica de sua sustentação, a traição se distingue como a transgressão intolerável. A traição, entendida como o atravessamento de um tabu, clama por vingança.
Os elementos do grupo, fervorosos seguidores desse princípio primordial da da aliança primitiva, entendem que a vingança deve recair, sem demora, sobre o transgressor. Por sua vez, ele mesmo, sabe não existir clemência para o seu ato. Requintes de crueldade, preparados sob a forma de ritos tribais, fazem parte dos dispositivos de vingança iniciados pelos membros do grupo que se sentem diretamente atingidos pela violação.
Marco conta como procedeu, certa vez, quando um parceiro, e amigo muito próximo, se revelou X-9. Fora chegada a hora de Marco pôr à prova sua fidelidade ao grupo. Não teve dúvidas quanto à missão a ele destinada.
Investiu na preparação do ritual de sacrifício para dar termo à vida do parceiro amigo. Cunhou o acontecimento de importância exemplar para os moradores e os soldados sob seu comando. Assim, encarregou-se da encenação macabra.

Nessa vida que a gente leva a gente não pode confiar em ninguém. Eu tinha um parceiro que era como se fosse meu irmão e ele me dedurou pros homens. Eu tive que dar uma grana pra eles me liberarem. Eu peguei esse cara, amarrei ele no poste na frente dos moradores e mandei um menor que é de minha confiança ir buscar uma machadinha que eu tinha trocado por cocaína na boca. Ele trouxe e eu arranquei a orelha dele, depois fui cortando parte por parte. Eu precisava fazer isso para as pessoas verem o que acontece com dedo duro. Depois peguei um copo, deixei cair o sangue dele e bebi. Fiz isso porque gostava muito dele.

Reeditou a cena mítica do assassinato e a atualizou numa cerimônia, repetindo a sequência de atos presentes nos rituais arcaicos do tribalismo: o guerreiro, rival morto, despedaçado e servido como alimento, era, justamente, o mais admirado. 
Ao contrário do tráfico, signo de força, a corporação policial era vista por ele como fraca. Formada por homens mentirosos, não cumprem o prometido. Extorquem, mineiram nas favelas e passavam a perna nos próprios colegas.
A polícia também encarnava seu mais temível perseguidor. Os policiais não ocupam posição definida: do ponto de vista estético, ético, subjetivo e social. Não assumem a escolha do crime como um caminho que abertamente possam seguir, nem se comprometem como policiais, ocupando um lugar, de fato, no controle social.
Permanecem indefinidos, numa zona obscura, ambígua, que justifica qualquer ato. Lugar que lhes permite promover as maiores inversões, sob o respaldo da oficialidade.
Que o mundo do crime e os policiais negociam, disso todos sabemos. Os traficantes dizem odiar essa indefinição da corporação policial. Ela não condiz com o ideal rígido que almejam: de extinguir toda ambiguidade.
Interessante notar como o exército serve de modelo para o tráfico administrar a organização precária do bicho. Embora seja uma instituição que não antagoniza, em organicidade, com a corporação policial, pois ambas mantêm composição estrutural semelhante: o militarismo, a hierarquia, a posição de defesa do estado, a formação do grupo em torno da liderança do pai, o comandante do batalhão.
Marco contabilizava na sua bagagem a morte de dois policiais. Trunfo que lhe rendia fama no bicho, e a cabeça a prêmio na polícia. Esse sucesso o fazia sentir-se cotado, afamado, temido, odiado, incorporando, em si mesmo, essa força mítica que amava e que buscava sorver na vida em forma de ato.
O perigo temido, que também amava, fazia dele um caçador a espreitar sua presa, e, tornava-o caça.
O pai de Marco, JL, também era percebido como um homem fraco. Marco se esforçava para esgarçar ao extremo essa diferença entre ele e o pai.
JL não era homem de se lançar a grandes desafios. Entregue ao alcoolismo, seu maior desvario, vagava como homem-menino perdido: não ambicionava substituir o pai nos negócios da contravenção, também não encontrava outro caminho.
Prisioneiro dessa história sem destino, JL se acomodou à ajuda financeira de seu pai, e ao escárnio de Marco, o qual odiava a incompetência dele, ou seja, a impossibilidade de JL para enfrentar uma vida de desafios.

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